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Mães do acampamento Marcelino Chiarello escrevem carta endereçada a juíza

7 de dezembro de 2017 - 15:09 / Comunidade Xanxerê | Comentários
Mães do acampamento Marcelino Chiarello escrevem carta endereçada a juíza Foto: divulgação

 

Cerca de 180 famílias Sem Terra do acampamento Marcelino Chiarello, que fica nos municípios de Xanxerê e Faxinal dos Guedes, interior de Santa Catarina, foram obrigadas a abandonar a área na última quarta-feira (29), de novembro. Forte aparato policial, com tropa de choque, cavalaria e helicóptero, foi mobilizado para cumprimento de decisão liminar de reintegração de posse.

A área pública foi ocupada pelos membros do MST há cerca de um ano e meio. Agora, decisão da comarca de Chapecó decidiu restituir a propriedade que possui mais de mil hectares à família Prezzotto. Cerca de 200 hectares estão plantados com milho, feijão, hortaliças, além da criação de animais, que servem à subsistência das famílias, que estão sendo obrigadas a desmontar os barracos deixando para trás parte da produção.

As mulheres do acampamento escreveram uma carta endereçada a  Juíza Heloisa Menegotto Pozenato da 2ª vara federal da justiça federal de Chapecó de Santa Catarina, nela as mulheres retratam o despejo violento e falam sobre a incerteza sobre o futuro.
Acompanhe:

Faxinal dos Guedes, 01 de dezembro de 2017

Para Excelentíssima Juíza Heloisa Menegotto Pozenato
2ª vara federal da justiça federal de Chapecó/SC

 

CARTA DAS MÃES DO ACAMPAMENTO MARCELINO CHIARELLO

 

Nós mães, que fazemos parte do Acampamento Marcelino Chiarello, e que junto com nossas famílias estamos lutando por um pedaço de terra para produzir alimentos e ter uma vida digna, queremos conversar sobre o despejo que a senhora ordenou no dia 29 de novembro de 2017, e que foi assinado pela sua mão e por sua consciência. Assinado pela mão de uma mulher, de uma mãe que, talvez por não saber da existência de mais de 90 crianças, não permitiu-se o mínimo de sensibilidade, com as crianças, mães, recém nascidos, e gestantes.

Quando tudo começou era antes das seis da manhã, tivemos que acordar nossas crianças pra receber a polícia, a tropa de choque, a cavalaria, o helicóptero, os cães… As crianças se desesperaram, e como explicar que a juíza mandou a polícia derrubar nossos barracos?! Elas não queriam sair, nós não queríamos sair. E ainda o comandante ordenou que em 15 minutos teríamos que começar a tirar as nossas coisas e começar a sair.
Nós mães vimos nossas crianças ficarem cada vez mais apavoradas ao ver tanta polícia entrando no acampamento, empunhando armas nas mãos, e termos que dizer que não era nada, que ia ficar tudo bem. Nossos filhos diziam para polícia parar, que não era pra derrubar nossos barracos, não era pra “matar nossas casas”. Esse homem vai levar meu boizinho, dizia o menino agarrado ao pescoço da mãe sem poder, na sua inocência, compreender o que se passava.

Fomos ensacando nossas coisas e não conseguíamos deixar de pensar que no acampamento, quando íamos preparar as refeições era só ir até as hortas, plantadas por nossas mãos, regadas com nosso suor sob o sol escaldante, e colher batatinha, mandioca, abóbora, batata doce, amendoim, abobrinha, couve, alface, cenoura, cebola, temperos… Nós não precisávamos comprar quase nada, o que a senhora pode imaginar de colocar na mesa a gente plantava.

Excelentíssima juíza, te perguntamos: Será que a tua sensibilidade foi menor do que a truculência do comandante, que queria que nos tirássemos a mudanças de 180 famílias em 4h? Nós morávamos ali, dia após dia, construíamos nossas vidas e nossos sonhos.

Durante todo o dia ouvimos a polícia dizer que se não saíssemos logo iam derrubar tudo, a gente saindo ou não, chamavam nossos filhos de vagabundos. Você que é mãe, imagina o que é ouvir um policial com armas na mão, chamar seu filho de vagabundo? E com o coração apertado, esmagado, ouvir tudo isso com um nó que sufocava a garganta? Ver sua casa sendo derrubada sem compaixão, estraçalhada pela ação impiedosa das máquinas autorizadas por uma caneta?

Ali ficaram muitas de nossas coisas: pias, fogões, roupas, comidas, brinquedos, animais. A polícia e a draga estavam atrás de nós, nos pressionando o tempo todo, não tivemos como tirar todas as nossas coisas, e vimos que o que foi ficando foi sendo esmagado. E muitos animais sendo enterraram vivos, na frente de nossos olhos. Até os gatinhos e cachorrinhos de nossas crianças foram soterrados.

Tudo isto fizestes usando o nome da justiça. Que justiça é essa que de justa não tem nada. Esta foi uma grande injustiça! Mandar a força armada destruir a vida das pessoas. A senhora aceitaria que fizessem isso com sua família, com seus filhos? Como a senhora agiria?

Nós só ocupamos essa terra porque ela é pública, a propriedade é do Incra. O latifundiário Prezzotto não pagou por esta terra. Se a terra é pública por que uma só pessoa pode se adonar dela? E nós que somos quase duzentas famílias não podemos viver e produzir nela?

 

Por: Patricia Silva

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