Fabielle Grosbelli, de 33 anos, é casada com Leandro Sauer, de 36. Eles se conheceram em 2018 por meio de um aplicativo de namoro e desde então, tudo tem caminhado de forma muito harmônica para que eles se tornassem uma grande família. Ela é servidora pública e ele professor. Eles namoraram por dois anos, quando […]
Fabielle Grosbelli, de 33 anos, é casada com Leandro Sauer, de 36. Eles se conheceram em 2018 por meio de um aplicativo de namoro e desde então, tudo tem caminhado de forma muito harmônica para que eles se tornassem uma grande família.
Ela é servidora pública e ele professor. Eles namoraram por dois anos, quando ganharam o concurso cultural Meu Casamento – que presenteia um casal com um casamento completo – nisso, foi Fabielle que fez o pedido oficial e então eles se casaram, indo morar sob o mesmo teto em 02/10/2020.
A história deles é baseada em muita fé. Cerca de um ano após se casarem, Fabielle conta que sentiu que deveria adotar um filho. A adoção já era um assunto normal entre o casal, eles então deram início ao processo de adoção que foi desde a entrega dos documentos no fórum, à habilitação (que levou sete meses), até a chegada do João, o primeiro filho do casal. Ele fazia parte do grupo de crianças com deficiências. Mas, isso não foi empecilho para que essa família se formasse, pelo contrário. Pouco tempo depois, veio a Maria, também com deficiência, mas em busca apenas de pais que a amassem como ela é.
A jornalista Patrícia Silva conversou com Fabielle que contou como foi o processo, a demora, os primeiros dias das crianças em casa, como os amigos e familiares reagiram e os planos do casal.
A leitura é um pouco longa, mas compensadora. Confira abaixo a entrevista na íntegra:
– Primeiro me fala um pouco sobre você e seu marido, quando casaram, profissão, se são de Xanxerê mesmo…
“Eu, Fabielle Grosbelli, tenho 33 anos, sou servidora pública, natural de Xanxerê mesmo. O Leandro Sauer tem 36 anos, é professor, natural de Tangará-SC, e mora em Xanxerê desde 2012. Nos conhecemos em novembro de 2018, pelo aplicativo de relacionamento Tinder (é estranho que deu casamento, mas deu). Namoramos até outubro de 2020, quando ganhei o sorteio do projeto “Meu casamento”, e então pedi ele em casamento, do nada, e ele disse sim. Nos casamos dia 02/10/2020 e fomos morar juntos”.
– Quando “ter filhos” entrou na vida de vocês, era um desejo antigo ou algo aconteceu que incentivou vocês?
“Sempre falamos em ter filhos, e tudo era uma questão de tempo, de sentirmos que era a hora. Em abril de 2020, ainda estávamos namorando, e eu tive um sonho. Sonhei que era mãe de uma criança, e foi tão real, que quando acordei eu sabia que esse filho existia. Eu havia ne tornado mãe naquela noite. Mas como? pois não estava grávida, nem estávamos tentando. Então comecei a ter diversos sonhos, todos muito reais e intensos. Acordava e lembrava com detalhes de tudo (ia anotando em uma agenda), e em um desses sonhos, eu estava em uma instituição de crianças para adoção (abrigo), e ali eu senti que tudo que eles queriam e necessitavam era “amor” e eu tinha muito pra dar. Foi assim que eu tive certeza que nosso filho já existia, havia nascido de outra barriga e precisávamos encontra-lo por meio da adoção.
Durante estes sonhos, consegui também sentir que seria um menino e que teria deficiência. Sempre pensei, desde a adolescência, que teria um filho com síndrome de down, e neste período, isso aflorou, e então sabia que nosso filho teria essa deficiência.
Após dois meses de muitos sonhos, orações e meditações, contei tudo que estava sentido para o Leandro, do quão certa eu estava em relação a adotarmos um filho, e ele, no mesmo momento disse que acreditava e confiava no que eu estava sentido, e que estava na hora de avançarmos na nossa relação, na construção da nossa família. Ele estava comigo para tudo isso. Ambos sentíamos que era Deus mostrando o caminho.
Então em julho de 2020 entregamos os documentos no Fórum da cidade e iniciamos o processo de habilitação a adoção”.
– A adoção sempre foi uma opção, sempre esteve nos planos do casal?
“Sempre falamos sobre isso, que gostaríamos de ter filhos, tanto pela adoção quanto biológicos. A adoção está presente na nossa vida. O pai do Leandro é filho pela adoção, e meu padrasto também tem um filho pela adoção. Acreditamos que a adoção é tão linda para começar uma família quanto um filho biológico. Em 2021 foi lançada uma cartilha sobre a adoção intitulada “Adote um amor”. Achamos essa frase certeira, forte e linda! Pois a adoção é exatamente isso, trazer mais um amor para a sua vida”.
– Como foi o processo de adoção para vocês?
“O nosso processo de habilitação a adoção durou 7 meses (início em julho de 2020). Sentimos que todas as etapas foram necessárias e de extrema importância. É um mundo novo que se abre, e você precisar ir se aprimorando, evoluindo, pois tudo mudará com a chegada da criança. Como as pessoas dizem: “estávamos grávidos!”.
O processo de habilitação se encerrou em fevereiro de 2021, e então entramos na famosa “fila da adoção”. Após 3 meses de muita ansiedade, encontramos o João no site “Busca Ativa” do TJSC. Lá se encontram os perfis de crianças com deficiência, grupos de irmãos e adolescentes, que não atendem a maioria dos perfis desejados.
A adoção do João foi rápida, dentro de 10 dias o conhecemos e o trouxemos para casa. Isso em junho de 2021. O João não tinha Síndrome de Down como imaginamos, mas sim, Paralisia Cerebral e Epilepsia, deficiência mais severa, contudo, isso não importava, pois havíamos sentido que ele era o nosso filho tão desejado.
Já a Maria, foi mais demorado. A encontramos em dezembro de 2021, também no site Busca Ativa de SC, mas naquele momento ainda tínhamos insegurança sobre ter mais um filho com deficiência. Foram dois meses de orações e amadurecimento para fazermos a coisa certa, sentirmos realmente se era os planos de Deus trazermos ela para casa. Estávamos falando sobre a vida de uma criança, nada pode ser por impulso. Tínhamos que garantir que “daríamos conta” dos dois.
No fim de fevereiro tivemos certeza que ela já era nossa filha, e então fomos em busca da nossa princesa Maria. Como haviam questões de saúde para serem resolvidas (cirurgia), demorou três meses para ela chegar aqui em casa. Então no fim de maio de 2022 ela veio encantar nosso lar”.

– Como foi quando os seus filhos chegaram em casa, a adaptação de rotina, o contato com a família, qual o principal desafio?
“Toda a mudança de rotina é difícil. A chegada de um filho, com ou sem deficiência é desafiador. Mas nós tínhamos a sensação que o João sempre esteve conosco, tudo fluiu rápido e com leveza. Aprendemos com facilidade a alimentá-lo via sonda nasoenteral e medicá-lo. Os banhos e trocas também seguiram um ritmo leve. As noites no início foram mais difíceis. A adaptação para ele de estar em um novo lar com duas pessoas estranhas gera um desconforto, por vezes acordava chorando a noite. Mas depois de um tempo isso passou, e começou dormir a noite inteira, calmo o tranquilo.
Com a Maria nós já estávamos craques [risos], pois cuidamos do João um ano até ela chegar, então, estava tudo sob controle. No começo ela teve algumas dificuldades para dormir à noite também, mas depois deu tudo certo.
Sabemos que os desafios são vários, como encontrar médicos e terapeutas especializados na região; o alto valor dos produtos e serviços para criança com deficiência; ainda, as temidas internações hospitalares. A saúde é mais delicada, e por isso, com frequência acontecem infecções, cirurgias, então temos que nos organizar com a rotina diferenciada e ainda, nos manter fortes para cuidar deles e de nós mesmos.
Quanto a questão familiar, a ideia de ter filhos pela adoção com deficiência gerou grande impacto. Podemos dizer que a maioria não conseguiu dar o apoio que imaginávamos. Ouvimos que deveríamos pensar melhor no assunto; que deveríamos ter um filho biológico já que nada nos impedia; que poderíamos até adotar, mas não uma criança com deficiência; e outras coisas semelhantes, frutos do medo, preconceito e ignorância.
Essa “não aceitação” também é um desafio, mas, fácil de superar quando a certeza mora no coração e na alma. Nós estávamos apenas comunicando, tudo já estava definido e encaminhado. Quando as crianças chegaram, tudo “caiu por terra”, elas se tornaram o xodó de toda a família. São muitos amados e mimados. Sem dúvida existe muito amor entre todos.
Infelizmente o João deixou nosso plano físico em setembro de 2022, após complicações pulmonares. Ele era incrível, maravilhoso, suas limitações eram grandes, mas eram apenas uma pequena parte de tudo o que era o João. Temos muito orgulho dele, ele era amoroso, forte, guerreiro e corajoso, espalhou amor por onde passou, não poderíamos ter recebido um filho mais perfeito do que ele. Então hoje seguimos eu, o Leandro e a Maria, felizes por saber que o João está bem nos braços de Deus”.

– E, infelizmente, sabemos que muitas crianças que acabam apresentando algum problema de saúde não são adotados e vocês fizeram exatamente o contrário, existe uma motivação especial?
Sim, infelizmente a maioria dos pretendentes a adoção desejam crianças saudáveis e sem deficiência. Acreditamos que o sentimento de adotarmos um filho exclusivamente com deficiência, lá em 2020, veio de Deus. Foi sentido que esse era o caminho, e estávamos felizes pela decisão. Quando encontramos o perfil do João, nos apaixonamos! E mesmo lendo que ele tinha uma deficiência muito mais severa do que imaginávamos, pensamos: “porque não ele? Porque ele não seria merecedor de uma família? De ser amado? E aí a emoção tomou conta, sabíamos que estávamos diante do nosso filho.
Depois disso, o mundo das pessoas com deficiência, das famílias atípicas como são chamadas, se tornou o nosso mundo, e então o amor tomou conta. A chegada da Maria também foi sentida como outro caminho que Deus nos mostrava, mas que foi muito intensificada pelo amor ao diferente, por aqueles que não são vistos, amor pelos sorrisos que nem sempre falam, pelas pernas que nem sempre andam, mas pelos corações que amam, mais do que muitos neste mundo.
As pessoas com deficiência ensinam sem dizer uma palavra, basta que nosso coração esteja aberto para ouvir. E o nosso está bem aberto!”
– E para o futuro, planos de aumentar ainda mais a família?
Sim, desejamos mais filhos no futuro, quando Deus tocar nossos corações novamente. A adoção continua sendo um grande pilar na nossa vida, mas, se sentirmos, em determinado momento, que é hora ter um filho biológico, nós teremos.

– Quanto ao preconceito, percebo que você passou a usar as redes sociais para desmistificar a adoção e falar de forma leve sobre o assunto, mas o preconceito foi uma realidade na vida de vocês?
“Sim, o preconceito existe desde o início, e neste caso, são sob dois aspectos principais: adoção e deficiência.
Como já comentado anteriormente, nem todos os nossos familiares e amigos conseguiram nos apoiar do jeito que imaginávamos. Existe um preconceito muito forte quanto a adoção na sociedade, e por ser pouco divulgada e estudada, há muita ignorância quanto aos seus alicerces e objetivos. Há muitos mitos envolvendo o mundo da adoção, e é difícil mostrar isso para os outros.
Muitas frases e perguntas nos chegam como: “Mas quando vocês vão ter os filhos de vocês? Porque vocês não adotam crianças perfeitas então? Crianças adotivas só dão problema!”. Ou ainda quando alguém diz que nos admira, pois ela jamais faria o que nós fizemos. Aí a gente pensa: o que é tão diferente assim na nossa família? o que é tão anormal pra essas pessoas dizerem que não fariam isso? Pode parecer um elogio, mas não é! Transparece que o outro não conseguiria amar uma criança que não fosse “perfeita”, ou que não tivesse nascido da sua barriga ou da barriga da sua esposa, e isso é triste. Isso é preconceito, por vezes velado e inconsciente, mas continua ferindo.
Sabemos que historicamente as crianças e adultos com deficiência eram deixados escondidos em casa, como se a vida deles fosse um castigo para a família. Então, com passos de formiguinha as coisas foram melhorando ao longo do tempo, mas ainda estamos longe do ideal. A inclusão existe muito mais no papel e no discurso das pessoas do que na vida real.
Ainda tem a questão do racismo, menos intenso pra nós, mas ele existe. A Maria ainda é pequena, e a maioria dos olhares dirigidos a ela são de carinho. Mas alguns olhares denunciam que o outro vê apenas uma criança preta, e que por alguma razão doentia, ela não se encaixa na nossa família ou na sociedade.
O preconceito infelizmente vai continuar existindo. O ser humano ainda é muito falho, cheio de imperfeições e maldade. Mas nós estamos preparados para enfrentar esses desafios. Sabemos que o amor é maior que tudo, e nada poderá abalar nossa estrutura familiar”.
– Quanto aos casais que também tem esse sonho de adotar, alguma dica?
“A adoção é um caminho lindo e sem volta. Cada passo dado, encanta e fortifica. Acima de tudo, acreditamos que Deus está no controle da nossa vida, e Ele já sabe quem são os nossos filhos predestinados a chegar, basta estarmos abertos a recebê-los.
Nós sempre dizemos que se uma pessoa pensa nisso, deve o quanto antes entrar com o processo de habilitação a adoção, para que esses filhos cheguem o mais cedo possível, pois, com certeza, a felicidade que ela imagina sentir, não chega nem perto da realidade que será vivida com a chegada dessas crianças.
Ainda, que não deem ouvidos as pessoas a sua volta. O que mais esses casais vão ouvir é posicionamentos contrários, e que se derem atenção, deixarão de viver algo único, mágico, e intensamente feliz. Que também, estudem e reflitam sobre abrir o perfil da criança desejada, o mais amplo que puderem em idade, cor, deficiências e doenças, pois, jamais se arrependerão disso. Quando se tem um filho biológico, não se escolhe nada, então porque ser tão rígido quanto ao perfil de um filho pela adoção? Nada é tão maravilhoso do que amar o seu filho, seja ele do jeito que for”.
