Do amor ao medo: confira os relatos de professoras que sofreram agressão em sala de aula

Ambas lecionavam em uma escola estadual do município e durante a aula foram agredidas por alunos

17 de julho de 2018 19:31
Comunidade , Lance Notícias , Xanxerê Compartilhar no Whatsapp
Do amor ao medo: confira os relatos de professoras que sofreram agressão em sala de aula Imagem Ilustrativa. (Foto: Alessandra Bagattini/Lance Notícias)

Depois do mês de maio deste ano, a vida e a rotina de duas professoras de Xanxerê mudou totalmente. Ambas lecionavam em uma escola estadual do município e, durante a aula, foram agredidas por alunos.

Atualmente, uma das professoras segue afastada, recebendo acompanhamento psicológico, e a outra voltou ao trabalho, mas fora da sala de aula e também recebendo acompanhando psiquiátrico. Sem identificar as professoras e a escola em que trabalham, elas conversaram com o LANCENOTICIAS.COM.BR e contaram como tudo aconteceu.

 

“Eu nunca tinha dado aula para ela. É uma menina de 16 anos, que mora com o namorado e vem de uma família desestruturada. Ela não tinha vindo na minha aula e, na quarta aula, apareceu. Foi quando me agrediu com um tapa no rosto. Eu estava explicando a atividade que era em dupla, e ela não tinha vindo na aula anterior. Quando eu estava explicando, ela me interrompeu pedindo se dava para sentar com a dupla dela, e eu disse para esperar. Nisso, ela arrastou a cadeira e sentou com a colega; daí, eu parei e chamei a atenção dela. Foi quando ela disse que eu não mandava nela e que ela não precisava estar me ouvindo. Nesse momento, eu falei que ela não era diferente dos colegas; aí, ela começou a me xingar, atirou um canetão na parede e, de repente, começou a jogar tudo o que ela tinha em cima da mesa. Foi quando os colegas tentaram segurá-la, mas ela veio para cima de mim e me deu um tapa no rosto”.

 

Após ser agredida, a professora resume o sentimento como de frustração. Ela se afastou da escola e segue de atestado.

 

“Eu não fui mais na escola, peguei um atestado e, agora nas férias, vou decidir meu futuro. Eu fiz o pedido de afastamento, entrei com um processo e ainda não tive resposta. A minha intenção é não voltar a dar aula, pois o sentimento é de frustração. Nós não temos apoio, não temos suporte na sala de aula. Porque a gente vê que as leis são todas para os alunos. Eu fui agredida, e a aluna nem se quer foi expulsa. O aprendizado em sala de aula não é mais importante…”.

 

A outra professora, que também conversou com o Lance Notícias, comenta que um lixeiro foi jogado em sua cabeça, confira o relato:

 

 “Esse aluno é repetente e já foi expulso da escola onde estava dando aula. Ele voltou, e eu fiz uma recuperação de uma prova em que ele tirou zero e, na recuperação, tirou 8,5. Eu falei para ele que eu sabia que havia colado e avisei que, na próxima, eu estaria de olho. E chegou a próxima avaliação, que foi depois da educação física. Ele chegou e sentou em outro lugar. Quando eu entreguei a prova, sentei e, nisso, ele tirou a cola do bolso e mostrou para uma colega; foi quando eu levantei e pedi para sair da cadeira. Ele se negou, colocou a mão no bolso e jogou a cola para trás. Nisso, caiu um papelote de maconha e a cola. Quando eu fui pegar, ele pegou antes. Eu pedi para ele me dar o papel, mas ele começou a rasgar e me xingar. Como fazia 15 dias que eu estava limpando a sala, pois a servente estava doente, o lixeiro estava cheio. Quando ele começou a falar e me ofender, eu comecei a rasgar também a prova e joguei para cima; com isso, caíram uns papéis nele. Nisso, eu me virei, e ele me jogou o lixo na cabeça – virou o lixeiro em cima de mim. Quase morri de vergonha; eu me senti muito mal. Me deu um pânico e eu não sabia o que fazer. Depois disso, os alunos seguraram ele para não me bater. E eu filmei ele me ameaçando. Só de falar isso, eu fico muito mal, é muito humilhante. Depois de tudo isso, os alunos começaram a limpar a mesa e me limpar”, conta emocionada.

 

Os dois alunos frequentam o nono ano da mesma escola, e as duas professoras registraram boletim de ocorrência, entrando com processos.

Uma das vítimas destaca que é necessário ter mais proteção aos professores.

 

“Primeiro que, por ser um fato com pouco conhecimento das pessoas, mostra que é como se a violência não tivesse impacto no ensino, no aprendizado e no cotidiano da escola, e os regimentos das escolas não costumam sequer prever esse tipo de crime. Outro fato é de que o ECA não protege os professores: a maior parte dos professores precisa deixar de atuar nas classes porque tem estresse pós-traumático. E quando os professores assumem outra função são vistos com preconceito até pelos próprios colegas”.

 

Ambas se dizem excluídas do ambiente escolar e relatam que existem vários professores que são agredidos mas preferem não denunciar.

 

“Fica para nós um sentimento de exclusão. Quase que diariamente os professores são xingados pelos alunos. Falta educação e respeito. O professor não tem estrutura para exercer sua profissão, não tem apoio psicológico ou emocional. Muitas vezes, ficamos confusas diante do que podemos fazer ou não. A maior parte simplesmente tolera o desrespeito ou transfere o problema para a coordenação pedagógica que, na maioria das vezes, não resolve o problema, e, se resolve, acaba sendo uma resolução momentânea”.

 

As professoras pedem ainda para que os pais eduquem seus filhos e não transfiram a educação para a escola.

 

“Outro fato importante para ressaltar é a questão de que os pais estão outorgando poder demais para os filhos. Não estabelecem limites, fazem todas as vontades do filho. Os pais estão transferindo a educação para as escolas, resultado de que as agressões surgem de uma mentalidade que vê a violência como um instrumento legítimo para resolver conflitos, lidar com as diferenças, expressar discordância ou mesmo responder a violência que vem do outro, o que acaba resultando em problemas na escola. Nós amávamos dar aula; hoje, temos medo”, conclui.

 

ADR de Xanxerê comenta:

O LANCENOTICIAS.com.br entrou em contato com o supervisor de Gestão Escolar da ADR Xanxerê, Volmir Lange, o qual explica quais são os procedimentos realizados com os professores que tenham sofrido alguma agressão.

“O que chegou para nós foi uma suposta agressão; uma delas não se confirmou. Nós intermediamos uma das situações, e a professora buscou os seus direitos. Do segundo caso, não tenho documentos que atestam que ocorreu a agressão. Mas, em toda a situação, primeiro existe uma lei que ampara o servidor público no seu local de trabalho; então, ele não pode ser desacatado e nem agredido. A primeira medida que tomamos é para que o professor registre esse boletim de ocorrência. Até porque, em questões de indisciplina, fazemos os registros e encaminhamentos; então existe a questão de encaminhar para o Conselho Tutelar e Ministério Público. Agora, questões de violência, mais graves, é com boletim de ocorrência. Nós orientamos para que não seja só feito o registro e sim para que seja dado procedimento aos fatos e que ocorra a penalidade. Nós damos todo o suporte para que isso aconteça. Se existir agressão, precisa ser dado esse encaminhamento”, comenta Volmir.

 


Por: Alessandra Bagattini

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