Natural de Xanxerê, Dante será o primeiro cão de busca e resgate dos bombeiros de Jaraguá do Sul

8 de julho de 2019 19:09 | Visualizações: 220
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Natural de Xanxerê, Dante será o primeiro cão de busca e resgate dos bombeiros de Jaraguá do Sul (Foto: Salmo Duarte, A Notícia

Fruto do primeiro nascimento de cães de busca e resgate catarinenses em três anos, o filhote de labrador Dante está sendo preparado para ser o primeiro cão-bombeiro do 3º Pelotão dos bombeiros militares de Jaraguá do Sul.

Nascido em 30 de março, em Xanxerê, o canino tem sua evolução acompanhada de perto pelos companheiros de corporação desde que completou dez dias de vida. Dali em diante, ele passou a manter uma rotina diária de treinamentos que segue durante 18 meses e terá pela frente uma prova de certificação para, enfim, estar apto a operar em ocorrências.

A história do pequeno cão é especial, principalmente para os membros do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC), porque o labrador faz parte da sexta geração de uma linhagem de cães de resgate que há 16 anos ajuda a salvar vidas. A mãe de Dante é a cadela Malu, de Xanxerê, recém-aposentada e que tem como marco na carreira o auxílio nos resgates no desmoronamento do Morro do Baú, em Ilhota, em 2008. O pai, é o Iron, também de Xanxerê, que por duas vezes foi enviado a Brumadinho (MG) em busca de corpos das vítimas do rompimento de uma das barragens da mineradora Vale.

A família canina também tem outra filhote que se prepara para atuar na região. Trata-se da Leia, encaminhada para Porto União, e que deverá ingressar nas operações na mesma época que Dante. Além deles, os bombeiros catarinenses mantém ao menos uma dezena de cães treinados para auxiliar no salvamento e resgate de pessoas.

No Estado, a equipe do 14º Batalhão de Xanxerê capacita bombeiros e cães para atuarem nas ocorrências, faz intercâmbios e recebe alunos de diversos estados, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Pernambuco. Com isso, o município do Oeste é uma das referências no país considerando o curso de formação de bombeiro cinotécnico, que visa formar profissionais especializados para operacionalizar o resgate com cães. A iniciativa existe há anos, mas ganhou maior notoriedade depois do desastre de Mariana (MG), ocorrido há quatro anos, em que o trabalho com cães farejadores foi essencial.

De acordo com o tenente-coronel de Xanxerê, Walter Parizotto, são dois filhotes, sendo que um está em Porto União e outro em Jaraguá do Sul.

– Dos filhotes da Malu, nós temos a Leia, que está em Porto União, e o Dante que está em Jaraguá do Sul. Eles ficaram conosco em Xanxerê, e daí foram encaminhados para estas cidades. Eles estão sendo preparados e estão em constate treinamento. Agora, durante um ano e meio, eles vão passar pelos treinamentos de formação para depois passar pela prova de certificação – cita.

Batizado pela população

Bombeiro desde 2014, o tenente Tiago José Domingos, da 4ª companhia do CBMSC, é capacitado como cinotécnico desde 2016 e será o responsável por conduzir Dante. Ele recebeu o cão com oito semanas e deve guiá-lo durante o adestramento e carreira, que para os cães dura em média oito anos.

— A experiência de trabalhar com o Dante está sendo extremamente prazerosa, é uma relação que vai além do profissional, o Dante é como um membro da família. A gente está todo dia junto, trabalhando, se ensinando. É satisfatório vê-lo alcançar um objetivo semanal e avançar na semana seguinte para algo além. E ele está lá aprendendo, evoluindo, crescendo, é gratificante saber que no final a gente vai poder ajudar alguém com isso — aponta Tiago em entrevista ao Diário Catarinense.

Para garantir o sucesso nesse processo, o condutor faz questão de manter a proximidade do cachorro com a comunidade de Jaraguá do Sul, uma vez que ele irá lidar com pessoas. E a resposta é recíproca, a população já se sente amiga do novo membro da corporação.

O nome do filhote foi escolhido pelos próprios jaraguaenses por meio de uma votação popular. “Dante” foi a opção de 70% dos votos em uma enquete com mais de 3 mil participantes. A escolha se deu por causa da obra A Divina Comédia, do poeta Dante Alighieri, que percorre uma viagem cheia de dificuldades, incluindo o inferno, para alcançar o paraíso.

— A ligação está no personagem ser um cavaleiro que fazia resgates e enfrentou várias dificuldades para trazer alguém de volta. E isso bateu com a história dele, que vai trabalhar também enfrentando muitas dificuldades para fazer um resgate — aponta Tiago.

Retorno à sociedade

No meio dos bombeiros militares, fala-se que um cão de busca vale por 20 homens nos quesitos de velocidade e área de trabalho. Por isso, os cães são utilizados nas ocorrências específicas de procura e salvamento de vítimas. Seja numa área rural, seja numa área de estrutura colapsada, seja num desmoronamento de prédio, ou seja, em um desastre natural, a presença dos cães de resgate é um privilégio e um ganho de tempo.

— Nesse tipo de situação o bombeiro precisa localizar a vítima o mais rápido possível, e nem sempre a gente sabe o número de pessoas envolvidas (na ocorrência), mas precisamos de ferramentas para poder encontrá-las rapidamente e de maneira segura e o cão vem a contribuir nesse processo — comenta Tiago Domingos.

O cão geralmente é mais ágil que o homem, trabalha pelo faro, consegue acessar locais em que o homem não consegue entrar, além de ter audição e sensibilidade melhor para com o ser humano para poder encontrar a vítima.

— O treinamento é feito para que eles encontrem a vítima e latam até que a equipe de socorro possa chegar e fazer as atividades necessárias, seja um desencarceramento, seja os primeiros-socorros  — destaca o guia.

Como exemplo de ganho efetivo se tem o trabalho em grandes áreas de extensão: para cobrir um ambiente de 20 a 30 mil metros quadrados, o que poderia levar até três horas feito por homens, o cão leva 15 minutos para realizar a mesma ação.

— Isso faz bem para a equipe porque o trabalho é feito de maneira mais eficiente, mas principalmente faz bem para as vítimas, já que este pode ser o tempo de sobrevida que ela tem até ser socorrida com vida — completa Tiago Domingos.

O passo a passo da preparação

Para dar conta dos desafios que terá de encarar, Dante é treinado desde os 10 dias de vida, etapa em que ocorre a seleção de filhotes aptos a seguirem o treinamento. Primeiro ele foi exposto a odores fortes, como cânfora, menta e hortelã. O objetivo foi desenvolver o sistema nervoso dele. Outros testes incluíram pequenos desafios para verificar como o cão lidaria com determinadas situações, como por exemplo, ficar um pouco afastado da mãe com uma barreira formada por uma garrafinha plástica, paninho, chinelo ou outro objeto.

Este desafio consistia em acompanhar como ele enfrenta as dificuldades até chegar aquilo quer, que nos primeiros dias de vida é simplesmente o leite materno. Depois, as atividades começam a evoluir e o bombeiro começa a perceber quais são os filhotes mais espertos; os mais preguiçosos; qual deles late mais; qual não late; qual fica seguro próximo ao ser humano; qual não quer contato com o ser humano, etc.

É neste momento que o cão deve dar os primeiros indícios de que no futuro poderá atuar em ações de resgate, devendo reunir qualidades como inteligência, capacidade de superar problemas, ter ótimo faro, bom condicionamento físico. É determinante ainda ser esperto para poder perder o rastro de uma possível vítima e conseguir encontrá-la novamente, como em uma brincadeira.

Assim, Dante foi avançando pouco a pouco até chegar a fase atual. Com 13 quilos a mais desde que nasceu, os objetivos dele agora são outros: vencer pequenos obstáculos e seguir um percurso roteirizado em sessões de 15 minutos, de quatro a cinco vezes por dia. O tempo e as dificuldades vão aumentando com o tempo – como a tarefa de procurar pessoas. Tudo é recompensado com ração como prêmio para cada objetivo cumprido.

— Desde filhotes esses desafios são uma coisa lúdica e para eles é uma diversão. Numa ocorrência de busca, por exemplo, eles estão brincando de esconde esconde em um ambiente que eles já foram treinados, ou seja, uma mata, uma praia, uma floresta fechada. Então eles estão ali em um ambiente em que eles se sentem bem e no qual estão agindo de maneira prazerosa. Não há um sofrimento e não há nada forçado, por isso que a gente já começa com treinamentos dentro do tempo adequado do cão — explica Tiago.

— A gente não avança etapas e não força que ele trabalhe. Ele não late porque eu mando ele latir, ele late porque ele entendeu que latir traz algo bom, então se ele encontra uma pessoa ele vai latir por vontade própria. Ele vai buscar por vontade própria e é isso que a gente quer — completa.


Por: Alessandra Bagattini

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