Projeto da Apae de Xanxerê discute sexualidade com alunos

17 de outubro de 2016 15:42
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Projeto da Apae de Xanxerê discute sexualidade com alunos A Apae de Xanxerê (Foto: Patricia Silva/ Lance Notícias)

A fase da adolescência é muitas vezes tida como uma fase da vida turbulenta. É um mar de novidades à frente. É uma porção de novas sensações, novas experiências e novas realidades. É nesta fase que se aflora a sexualidade. Para muitas famílias o tema ainda é tido como tabu, proibido, para outras nem tanto, mas o fato é que o novo será descoberto uma hora ou outra. Da mesma forma acontece as pessoas com deficiência mental. Ou não, pois as barreiras são muito maiores.

Os autores Bastos e Deslandes afirmam que “O desenvolvimento da sexualidade está vinculado ao desenvolvimento integral do indivíduo, sendo considerado um elemento constitutivo da personalidade”, ou seja, os indivíduos com deficiência seja ela mental ou física, possuem as mesmas necessidades e vontades que outro indivíduo sem esta característica.

Marilene, hoje com 52 anos de idade e portadora de deficiência mental sabe bem como são as dificuldades enfrentadas por uma mulher, com deficiência, em relação a sua sexualidade. Há 28 anos, ela engravidou e o homem, que era seu companheiro, a abandonou.

“Em dezembro meu filho vai fazer 28 anos, é meu anjo. Mas, quando eu descobri foi uma tristeza, eu tinha muito medo que ele nascesse com alguma sequela por causa do meu problema. Na época quem mais me ajudou foi a escola [Apae]”, comenta.

Marilene, comenta que assim que soube que estava grávida, o homem, que era o pai, foi embora.

“Eu não lembro direito, mas ele tinha mais ou menos a minha idade (24 na época), ele era separado já. Foi até na minha casa, pediu para os meus pais para namorar comigo, minha mãe não queria por que ele já tinha outra mulher, mas namoramos. Saímos uma vez e eu engravidei, quando descobri contei para ele e ele foi para o Mato Grosso com a ex-mulher dele e eu fiquei com meu filho”.

 

Segundo relacionamento

Diferente de algumas pessoas com deficiência mental, Marilene sabe o que é permitido e o que não é permitido em um relacionamento, ela entende o momento certo para cada ação, como um beijo, um abraço ou ainda a própria relação sexual. Depois de alguns anos do nascimento do seu filho, ela passou a se envolver com outro homem, desta vez um indivíduo que também possui deficiência mental. O relacionamento durou pouco mais de 13 anos.

“Eles namoravam há anos, ela passava o fim de semana na casa dele e ele na casa dela. Mas, no começo desse ano ele ‘pediu um tempo’. Ela sentiu bastante a perda dele e hoje nós trabalhamos isso com terapia”, explica a psicóloga Letícia Ogliari, que acompanha Marilene na Apae de Xanxerê.

 

Acompanhamento da Apae

A Apae já trabalha o tema com os alunos há algum tempo. A psicóloga que acompanha o trabalho, Letícia Ogliari, explica que inicialmente se faz o contato com os pais pedindo autorização.

“Primeiro, nós chamamos os pais, explicamos a didática das atividades para eles e pedimos autorização. O projeto é sempre muito bem recebido, pois sabemos das dificuldades muitas vezes dos próprios pais em tirar as dúvidas que os filhos têm, que não são poucas. Percebemos que os pais também têm dúvidas e esse projeto dá exatamente o espaço que eles precisam para perguntar, questionar e entender um pouco mais sobre o seu corpo e sobre a sexualidade. Algumas pessoas podem até pensar que falando sobre sexo, isso irá estimular a prática e na verdade é o contrário, a partir do momento que eles sabem do que se trata e no que essa ação pode acarretar, eles pensam duas vezes antes de fazer qualquer coisa”, comenta a psicóloga.

 

Barreira com os pais

“Os adolescentes percebem a possibilidade de erotização e da obtenção de prazer pelo sexo. Mas, alguns adolescentes com deficiência mental não sabem bem como lidar com estas novas sensações, podendo ser difícil o controle de seus impulsos sexuais”, comentam os autores Bastos e Deslandes. E, este detalhe é amplamente discutido com as psicólogas do programa da Apae, do qual a Marilene faz parte.

“Eles têm muitas dúvidas e a primeira reação é pedir para a mãe, para o pai, a pessoa mais próxima, mas acontece desta pessoa cortar a dúvida, não responder. Isso acontece principalmente quando o responsável é uma pessoa de mais idade, nós sabemos que sexo não é um assunto discutido abertamente entre as famílias. Nós percebemos até mesmo no programa que para fazer eles se soltarem e falarem os seus questionamentos não é fácil, mas aos poucos eles vão se soltando”, explica Letícia.

 

Como o tema é discutido

Letícia explica que o assunto precisa ser abordado de forma lúdica, com calma, para que todos entendam. O grupo utiliza muito desenho, gravuras para expressar o assunto.

“Nós iniciamos abordando o corpo humano. Eles desenharam o corpo humano e juntos fomos discutindo cada parte. No outro encontro já partimos para o que pode e o que não pode em cada ambiente. Eles precisam entender o que pode se fazer em público e o que precisa ser em particular. E, a cada encontro nós relembramos tudo que já foi discutido e partimos para o novo”.

Uma acadêmica do curso de psicologia da Unoesc também acompanha o programa, “nós do curso de psicologia fazemos os últimos dois anos de estágio, que é o que estou fazendo agora. A gente analisa a demanda e necessidade da escola e de acordo com os professores, optamos a falar sobre sexualidade. A gente já vê evolução e crescimento. Alguns deles já mostram que estão aprendendo, sabem melhor o que pode o que não pode. Aqui nós temos que trabalhar de forma lúdica, explicar várias vezes de acordo com a necessidade de cada aluno e nós percebemos que eles mesmos se ajudam”, Vanessa Somensi.

“Hoje eu estou sozinha e desimpedida, vivo com meu gatinho (filho), ele me dá um abraço e um beijo toda a manhã”, finaliza Marilene. O seu filho nasceu sem sequelas, trabalha como pedreiro e acompanha a rotina da sua mãe.

 


Por: Patricia Silva

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