Três anos depois, bombeiro de Xanxerê relembra atuação durante tragédia de Mariana

6 de novembro de 2018 09:50 | Bombeiros , Variedades , Xanxerê Compartilhar no Whatsapp
Três anos depois, bombeiro de Xanxerê relembra atuação durante tragédia de Mariana (Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Na segunda-feira (05), a maior tragédia ambiental já registrado no Brasil completou três anos: a tragédia de Mariana. O vazamento da barragem de rejeitos de minério da Samarco matou 19 pessoas e afetou as vidas de pelo menos 500 mil moradores de Minas Gerais e do Espírito Santo.

E, mesmo após esse tempo, as famílias atingidas continuam sem receber a indenização devida, morando de aluguel, apenas com a lembrança de seu antigo lar, que ficou soterrado debaixo de lama e rejeitos de minério.

Na época, o bombeiro de Xanxerê tenente Alan Delei Cielusinsky, junto com seu cão Tchak, foram convocados para auxiliar na varredura do local e busca por vítimas. Foram sete dias de trabalho em meio a lama e percorrendo terrenos acidentados.

Alan lembra que a expectativa era grande quando foram mobilizados para trabalhar nesta operação. “Quando fomos mobilizados para ir para lá a expectativa era grande, porque ao mesmo tempo em que estávamos indo para uma missão importante estávamos indo para o maior desastre natural do país e tínhamos em mente que a dificuldade seria gigantesca. E de fato foi”, destaca.

Com a aeronave do Corpo de Bombeiros catarinense, Alan e Tchak desembarcaram em Belo Horizonte, seguindo até a cidade da tragédia com viaturas do Corpo de Bombeiros local. Ele destaca que, ao chegar no local, tiveram de enfrentar diversas dificuldades, pois além do terreno acidentado e perigoso, era uma situação arriscada, com risco eminente de um novo rompimento.

“A primeira dificuldade foi a dimensão do desastre. Segundo, as possibilidades de localizar corpos ou restos mortais e os riscos que a gente se deparava lá também, principalmente quando saímos do distrito de Rio Doce e voltamos para trabalhar em Mariana. Ficamos na sede da empresa Samarco, que era a base da operação do Bombeiro, e passamos a trabalhar dentro da sede da empresa, muito próximo do local que foi o rompimento mesmo. Ali naquele local havia um risco muito grande de um novo rompimento. Estávamos trabalhando no coração do desastre e o risco de outro rompimento era eminente e o risco de ser atingido também”.

O binômio xanxerense ficou exposto a lama e rejeitos de minério, sem saber exatamente as consequências que isso poderia causar. A dupla era empregada, principalmente, para trabalhar em locais onde havia a possibilidade de encontrar vítimas em meio a lama. A maior dificuldade durante a operação era o deslocamento no terreno, segundo o bombeiro.

“Em uma dessas áreas em que procuramos, o Tchak mostrou uma diferença de comportamento e as equipes começaram a escavar no local e encontraram alguns ossos, mas não um corpo inteiro, até pela mecânica do desastre, era quase impossível localizar um corpo inteiro. E tínhamos muita dificuldade de deslocamento no terreno. Eu mesmo passei por uma situação em que meu cão sumiu por alguns momentos e ele tinha ficado preso na lama, literalmente atolado. O risco era muito grande, era um cenário muito imprevisível”, lembra.

Hoje, Tchak é aposentado e vive tranquilo, como companheiro de Alan. Durante a operação, seu desempenho foi considerado muito bom, mesmo diante das situações atípicas. “Consideramos o desempenho dos nossos cães muito bom, pois treinamos o emprego deles em áreas deslizadas. Mas, claro, de todo cenário que se pode empregar o cão, esse é o pior. O deslocamento para o cão é muito difícil, ele cansa muito fácil, por conta da lama”.

Após três anos, o sentimento do bombeiro que acompanhou de perto o drama e as consequências causadas pelo desastre é de indignação, principalmente por ver que nenhuma providência foi tomada para evitar novos desastres como esse, inclusive em barragens da região.

“É uma indignação muito grande ver que em nosso país ainda acontecem coisas assim e nada é feito para mudar. Um desastre dessa magnitude, que causou tamanho impacto ambiental e humano e nada foi feito. As famílias que foram atingidas e que ainda não receberam as indenizações, continuam morando de aluguel, é triste ver que no nosso país as coisas são assim. E, pior ainda, é ver que esse risco de rompimento de barragens ainda existe, tanto barragens de rejeitos como essa como também de água, que tem na nossa região”, comenta.

Diante das proporções da tragédia, Alan comenta que, como bombeiro, ser convocado para uma operação dessa magnitude é gratificante e uma experiência inexplicável.

“Por mais que a magnitude do desastre seja gigantesca, o sentimento como bombeiro de participar de uma operação dessa é muito gratificante, de ter sido lembrado, ter sido acionado, porque treinamos para isso. Nossa história se constrói por meio da experiência ao longo da carreira. E a experiência foi muito boa de participar tanto dessa operação, atuação no cenário quanto com a interação dos bombeiros do local. Foi uma experiência muito boa”, finaliza.

O Corpo de Bombeiros de Xanxerê enviou uma força tarefa para a operação, sendo os bombeiros divididos em três semanas. Os trabalhos foram divididos assim: na primeira semana na cidade de Rio Doce e nos distritos de Paracatú de Baixo e Bento Rodrigues. Na segunda e terceira semana em Mariana, baseados dentro da empresa Samarco e dali os bombeiros eram levados para os pontos em que as equipes do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais solicitava nas margens do Rio Doce. A corporação foi dividida assim:

Primeira semana: sargento Amorin e o cão Ice, sargento Leonardo e o cão Arcanjo;
Segunda semana: Ten Alan e o cão Tchak, Cb Rafael e o cão Mel;
Terceira semana: Ten Marcelo, Cb Fumagalli e o cão Findi.


Por: Alessandra Oliveira

Deixe seu comentário

Saiba Mais