Cultura

Gabriella Narcizo | 21/07/2026 08:59

21/07/2026 08:59

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Filme Watchmen: como Zack Snyder adaptou os quadrinhos considerados inadaptáveis

Adaptação fiel que revela os limites de levar os quadrinhos ao cinema

O filme watchmen de Zack Snyder, lançado em 2009, foi descrito durante anos como o projeto que cineastas experientes recusaram por considerar o material de origem inadaptável, e a versão que chegou às telas demonstrou tanto por que essa avaliação era razoável quanto por que estava parcialmente equivocada. A graphic novel de Alan Moore e Dave Gibbons, publicada em 1986 e 1987, é regularmente considerada a obra mais complexa e mais ambiciosa da história dos quadrinhos americanos, com uma estrutura narrativa que usa recursos específicos do medium impresso, como a disposição espacial das páginas, a simultaneidade de múltiplas linhas narrativas e o uso de textos como os relatórios de Dr. Manhattan, que o cinema não consegue replicar diretamente. A disponibilidade gratuita em streaming é a oportunidade mais acessível de ver o resultado desta adaptação específica.

O material de origem e o que o tornava complexo

Watchmen de Moore e Gibbons é uma desconstrução do gênero de super-herói que funciona simultaneamente como thriller político de ficção científica, estudo de psicologia de personagem e comentário sobre a Guerra Fria, ambientado num 1985 alternativo em que super-heróis reais existem e em que os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã com a ajuda de Dr. Manhattan, um ser com poderes quase ilimitados cujo distanciamento progressivo da humanidade é um dos eixos narrativos centrais. A complexidade do material está menos na trama, que é um mistério de assassinato convencional, e mais na densidade filosófica e moral dos personagens e na forma como o roteiro usa cada um deles para examinar diferentes posições sobre vigilantismo, responsabilidade e o que significa fazer o bem.

Rorschach, o vigilante que mantém a investigação quando todos os outros se recusam, representa um absolutismo moral que funciona dramaticamente mas que o material apresenta como psicologicamente destrutivo. O Comediante representa o cinismo como posição filosófica, a visão de que o mundo é uma piada cruel que os super-heróis participam em vez de corrigir. Ozymandias representa o utilitarismo extremo, a convicção de que fins suficientemente bons justificam meios suficientemente monstruosos. Dr. Manhattan representa a dissociação progressiva de valores humanos que o poder ilimitado produz.

O que Snyder acertou e onde tropeçou

Snyder foi fiel à estrutura e à estética dos quadrinhos originais de formas que os fãs da graphic novel valorizaram enormemente, a fidelidade visual à obra de Dave Gibbons, com cenas que reproduzem composições específicas dos quadrinhos com precisão quase fotográfica, criou uma experiência de reconhecimento que outros diretores, mais preocupados com distanciar o filme da origem, não teriam proporcionado. O cast, com Jackie Earle Haley como Rorschach, Jeffrey Dean Morgan como o Comediante e Billy Crudup como Dr. Manhattan, foi recebido com aprovação generalizada pelos fãs, com Haley sendo especificamente celebrado por capturar a psicologia específica de um dos personagens mais complexos do gênero.

A graphic novel como literatura e como cinema

A relação entre Watchmen como texto literário e como filme é um dos casos mais ricos do cinema de adaptação para examinar o que cada medium pode e não pode fazer. A graphic novel de Moore e Gibbons usa a disposição espacial das páginas como instrumento narrativo de formas que o cinema simplesmente não consegue replicar, a estrutura de doze painéis por página permite que múltiplas ações simultâneas sejam apresentadas com clareza visual que o corte cinematográfico não consegue reproduzir com a mesma eficiência. A estrutura de “Tales of the Black Freighter”, o conto de piratas dentro do conto principal que cria comentário paralelo sobre os eventos da trama principal, funciona muito mais organicamente no texto do que em qualquer adaptação cinematográfica poderia alcançar.

O que o filme de Snyder consegue fazer que o texto não pode é criar a experiência temporal real de habitar o universo, os movimentos de Rorschach, a fisicalidade de Dr. Manhattan, a textura do Nova York alternativo de 1985. A complementaridade entre os dois formats é o argumento mais forte para que quem viu o filme busque também a graphic novel.

Por que Watchmen ainda importa em 2025

As questões que Watchmen coloca sobre vigilantismo sem accountability, sobre o uso da tecnologia para criar segurança à custa de liberdade, e sobre a disposição de poucos de decidir pelo destino de muitos em nome do bem comum são mais urgentes em 2025 do que eram quando a graphic novel foi publicada em 1987. A relevância persistente é o sinal mais claro de que Moore e Gibbons tocaram em algo fundamental sobre a condição humana e sobre o poder político que o gênero de super-herói raramente tenta com a mesma profundidade.

Alan Moore e a recusa de crédito

Alan Moore, co-criador da graphic novel com Dave Gibbons, recusou qualquer crédito ou compensação financeira pelo filme de Zack Snyder e por todas as adaptações subsequentes, incluindo a série da HBO de 2019. A posição de Moore é filosoficamente consistente, ele considera que obras escritas especificamente para os quadrinhos exploram possibilidades que apenas esse medium oferece, e que qualquer adaptação é necessariamente uma traição à forma original. Que Snyder tenha ignorado essa posição e que o resultado tenha sido um filme que muitos fãs apreciam é uma ironia que o próprio Moore provavelmente aprecia mais do que admite.

Dave Gibbons e a colaboração visual

Dave Gibbons teve uma relação diferente com a adaptação, participando como consultor e declarando que o filme capturou elementos visuais da obra com uma fidelidade que ele não esperava. A distinção entre a posição de Moore e a de Gibbons é instrutiva, o escritor recusou qualquer envolvimento, enquanto o artista colaborou, sugerindo que o que é adaptável de Watchmen, as imagens e a estética visual, foi preservado mais completamente do que o que resiste, que é a estrutura específica do medium impresso.

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